Uma Ode A Forma

sontag, pollock e todas as sensações.


1.


O que não sai da minha memória é a sensação física. O frio do ar-condicionado; a solidão. Eu ouvia alguns passos, alguns sussurros distantes. O barulho da cidade ao fundo gritava para não me deixar esquecer que eu estava em um lugar que não o meu. Sirenes, buzinas, caos. Na minha frente: Pollock.

Lembro do arrepio, da emoção, dos olhos inquietos que não conseguiam desviar o foco para qualquer outra coisa que não a tela à minha frente. As cores pareciam se mover em uma dança caótica e delicada ao mesmo tempo. O quadro crescia, dominava tudo ao meu redor. Fiquei estática. Presa dentro dos respingos de tinta, do movimento.

Lembro, ainda, de ouvir duas pessoas conversando ao meu lado (quando elas surgiram ali?). "O que essa obra siginifica?". Me perdi em meus pensamentos sobre a questão. Me perdi no tempo. Foram horas? Minutos? A tela me engolia. Ali estava eu, abraçada, sufocada, dominada por tela, tinta e Pollock.

Afinal, a obra precisa significar alguma coisa? Ela não pode ser somente o que está ali? Uma obra precisa ir além dela mesma?


2.

Pensar o moderno é pensar em um estado de divergência. Um estado constante de ruptura, movimento, inquietação, um eterno caminhar.

Sempre pensei na modernidade como um espaço temporal. Começa ali e vai até lá. Na história da arte, a modernidade tem sua linha do tempo própria. Tempo, história. Decoramos as datas, os nomes e os contextos. Mas nossas discussões me tiraram desse lugar comum e me puseram a pensar o moderno de uma forma nova (para mim).

Começando com o olhar. O olhar para o banal que consegue extrair dessa banalidade cotidiana, a poesia. Elena Ferrante, em seu livro A Vida Mentirosa dos Adultos (2020), coloca que "se o poeta pega nossas palavras banais e as libera do bate-papo, eis que elas, a partir de sua banalidade, manifestam uma energia inesperada" (FERRANTE, Elena. A vida mentirosa dos adultos. 2020). Essa frase ficou na minha cabeça durante todas as nossas trocas. E não é exatamente isso? O artista consegue olhar para o banal e ver além. Podemos trazer Marcel Duchamp (1887 - 1968) para nossa mesa. Com sua apropriação de objetos comuns (banais) que, sob seu olhar, ganham uma nova poética, se transformando então em uma obra de arte. Ready made - já feito.

A ruptura com o clássico, com o mito, com a religiosidade e a sacralidade de temas abriu portas para experimentações antes impensadas. Escancarou portas para que os artistas pudessem olhar não mais para uma instituição (a igreja, a academia, os mecenas), mas para si mesmos, para sua própria humanidade e para o mundo à sua volta.

Os conteúdos passam a, cada vez mais, importar menos. A materialidade da obra ganha espaço e valor. Se antes as imagens vinham carregadas de símbolos e significados, forçando uma interpretação, agora é possível olhar texturas e cores como elas são: tinta e pigmento.



3.


"Nem todos os caminhos dessa arte

moderna conduzem a idéias de finalidade".

Allan Kaprow


Me peguei pensando nessa minha experiência com a tela do Jackson Pollock durante a leitura de Contra a Interpretação. Como não fazer o paralelo dessas sensações que me invadiram com as palavras de Susan Sontag?

Me tocou, em especial, quando Sontag coloca que "hoje a proliferação de interpretações da arte envenena nossa sensibilidade. (...) A interpretação é a vingança do intelecto contra a arte." (SONTAG, Susan. Contra a Interpretação e outros ensaios. 2020. pg 21). Entendi que o pensamento moderno, segundo a autora, traz uma relação com a arte que pretende ser mais sensorial do que interpretativa. Observar uma obra e senti-la é muito mais potente do que tentar decifrar seus signos (ocultos ou não). Sontag continua,

"Em muitos casos modernos, a interpretação consiste na recusa filistina de deixar a obra de arte em paz. (...) Ao reduzir a obra de arte a seu conteúdo e então interpretá-lo, doma-se a obra de arte. A interpretação torna a arte dócil, submissa." (SONTAG, 2020. pg. 21)


A materialidade de uma obra pode, e deve, ser absorvida para além de seu conteúdo. A procura constante de interpretações nos deixa em uma eterna busca por significados ocultos. E se a obra não os tem? Deixaremos de absorvê-la em sua totalidade por isso?

Mais uma vez, volto a Pollock. A sensação física de ser dominada pelos respingos de tinta não deveria acontecer? Perder horas na frente de todas as cores e texturas é menor do que conseguir interpretar, por exemplo, O Jardim das Delícias Terrenas (1504) de Hieronymus Bosch?

Na modernidade há a ruptura nas artes e, com ela, "o material torna-se portador de suas próprias significações" (FERREIRA, Glória. Escritos de artistas- anos 60/70. 2014. pg. 25). A obra, agora, se expressa como um ser autônomo. Passamos, assim, de seres racionais-interpretativos para seres de sensação.

Na modernidade, portanto, a obra não mais termina quando o artista dá a última pincelada. Termina quando o espectador sente algo ao observá-la.



Bibliografia


FERRANTE, Elena. A vida mentirosa dos adultos. 2020

FERREIRA, Glória e COTRIM, Cecília [orgs.]. Escritos de Artistas - Anos 60/70. Rio de Janeiro, 2006.

SONTAG, Susan. Contra a Interpretação e outros ensaios. São Paulo, 2020.



#pollock #susansontag


* o texto acima foi escrito por mim, originalmente como trabalho final da disciplina "arte moderna" da pós graduação de história da arte - teoria e crítica. 2021